16 de agosto de 2016

TROVA # 81

MARAVILHA ETERNA 

Em memória de Elke Maravilha (1945-2016)


"Sou extremamente política, mas não sou ativista e nunca fui. Não dá certo. Sou anarquista. Há governo, sou contra. Os governos não resolvem, o ideal tem que estar no coração. Meu coração diz que preciso pagar bem as pessoas, não preciso ser de esquerda ou de direita."
(Elke Maravilha)

"Elke mulher maravilha
Uma negra alemã um radar
Um mar uma pilha
Elke mulher maravilha
Uma branca maçã avatar
Um luar uma ilha
Elke mulher maravilha
Uma deusa pagã um sonar
Um altar uma trilha
Elke mulher maravilha
Uma prenda Ogã um pilar
O ar mãe e filha"
(Itamar Assumpção)



Insônia. Angústia. Viro na cama de um lado para o outro depois de assistir uma partida de vôlei masculino eletrizante que nos leva para as quartas de final dos Jogos Olímpicos de 2016 depois de muito sofrimento. Tentar dormir para acordar daqui a pouco e retomar a rotina e o trabalho. Corre-corre. Viver entre os parcos intervalos que nos cabem no latifúndio alheio. Tentar descansar mais tarde...


Pego o iPad para ver as horas e acessar as redes sociais e fazer com que Morfeu me encontre facilmente para um encontro rumo aos lençóis e edredons. Em vão! Leio a notícia mais devastadora para os amantes das artes deste mês de agosto. Elke Maravilha tinha acabado de falecer. O sono mandou lembranças. A tristeza me invadia depois da euforia provocada pela seleção masculina de vôlei. Cadê o Bernardinho para me dar uma orientação diante de um lance desses que a morte deu na nossa quadra?


Elke Maravilha era uma dessas pessoas que não deviam morrer, mas que deviam ficar encantadas para que este país se lembrasse de que deveria ser irreverente, sarcástico, extravagante e inteligente para todo o sempre. É uma perda gigantesca para nossas artes. Basicamente porque Elke, apesar de ser russa de nascimento, apesar de ser apátrida, era muito mais brasileira do que vários artistas que foram nascidos e criados por aqui. Foi tão mineira quanto Drummond, por ter sido criada na mesma Itabira do autor de A Rosa do Povo. Foi atriz. Foi modelo. Foi jurada do Chacrinha. Foi jurada do Show de Calouros do Silvio Santos. Foi ativista dos direitos da comunidade LGBT. Foi uma lutadora dos portadores de hanseníase. Foi revolucionária. Foi de uma inteligência inacreditável. Via e compreendia o mundo com a inocência e a inteligencia de uma criança. Uma mulher Ímpar. Incomparável. Irrepreensível. 


A primeira vez que ouvi falar mesmo de Elke já distante das minhas infantes memórias foi lá pelos idos de 2002. Minha grande amiga Caroline Rohan estava encastelada em seu antigo apartamento em Copacabana por causa de uma desilusão amorosa que lhe custou muito caro. Dentre o período que passou tristonha e desesperadamente solitária em casa, citou para mim e um colega que tinha assistido durante o seu exílio particular a uma entrevista com a ex-jurada do Cassino do Chacrinha que tinha lhe marcado muito. Foi duramente criticado pelo meu colega. Provavelmente fiquei em silêncio, pois eu não tinha opinião formada sobre aquela moça de trajes e perucas extravagantes. Só fui entender sua importância anos depois...


Quando fui assistir a atuação matadora que Patrícia Pillar fez de Zuzu Angel no cinema, vi que Elke Maravilha era uma personagem fundamental de nossas artes desde a primeira metade dos anos 1970. Passei a respeitá-la e a admirá-la por ver que ela era uma artista completa, uma mulher corajosa e que sabia pensar com imensa peculiaridade o aqui e o agora. Falava várias línguas. Cantava em alemão lindamente. Dominava o palco e o público com o charme de uma sereia que cantava para o seu pescador. Se você não fosse um ser insensível, o encanto era automático. A musa apátrida estava sempre pronta para conquistar mais um admirador.



Eu a vi em carne e osso uma única vez no SESC Pompeia em 22 de novembro de 2007. Era o encerramento de um dos festivais do Mix Brasil e ela faria uma participação especial de uma show de um cantor uruguaio do qual eu nem lembro mais o nome. Ângela Ro Ro, motivo principal de minha peregrinação até a Rua Clélia, fecharia o evento. Logo ao chegar, vi uma mulher altíssima, andando com certa e notória dificuldade (afinal, não devia ser fácil para uma jovem senhora de 60 e poucos anos se equilibrar em cima de um salto plataforma) e cheirosa. Perfumadíssima. Pronta para encantar seu público com o seu sorrido gigantesco e seu magnetismo único. Elke Maravilha tirou fotos conosco no meio da choperia do Pompeia e, minutos depois, fez uma apresentação belíssima.

Elke Maravilha, SESC Pompeia: 22/11/2007 - Foto: Nilton Serra





Nos últimos tempos, Elke estava correndo as cidades do país com o espetáculo Elke Canta e Conta. Sempre prometi a mim mesmo que gostaria de assisti-la quando ela pousasse por São Paulo para uma apresentação. Vou ficar devendo essa para ela, infelizmente... Vibrei com a participação incendiária dela no barulhento CD Selvática, de Karina Buhr, na esperança de que um dia o mundo poderia assisti-la ao lado de Karina e Denise Assunção bradando impropérios contra todos aqueles que amaldiçoaram as mulheres no decorrer de toda a caminhada insólita da humanidade. Nunca poderemos ver isso... Agora nos resta o consolo, no auge de nossa incerta crença cristã, de que ela vai brilhar nos palcos celestiais...



Este país fica muito mais triste e muito menos irreverente sem a presença de "Elke Mulher Maravilha" (pegando de empréstimo o verso de Mestre Itamar Assumpção). É muito, muito difícil saber que perdemos uma pessoa tão alegre e inteligente. Tão necessária para os tempos tão bicudos que o Brasil tem vivido. A lição que fica para todos os brasileiros é de que caretice é um mal enorme do qual não devemos compadecer. 


Vá em paz, Criança (com "C" maiúsculo mesmo)! Agora és nossa maravilha eterna. Sua missão foi muito bem cumprida. Você está pronta para brincar de outra coisa, do jeito que você sempre disse. Nos, por aqui, não vamos ceder à caretice, mesmo sem a sua presença física marcante. Vamos lutar sem trégua contra os mesquinhos e os hipócritas. Por você, por Zuzu, por Chacrinha e por todos os outros. Por sua gargalhada. Por sua inteligência. Não deixe de olhar por nós, de onde você estiver...








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