25 de fevereiro de 2018

TROVA # 147


MESTRE PAULINHO
(DUAS OU TRÊS COISINHAS SOBRE PAULINHO DA VIOLA)



Meu bem, perdoa
Perdoa meu coração pecador
Você sabe que jamais eu viverei
Sem o seu amor
(Paulinho da Viola, 1976)



Aproveitei a época do Carnaval e resolvi continuar ouvindo uma de minhas maiores inspirações musicais, Paulinho da Viola. Um dos maiores estandartes musicais da Portela, Paulinho é autor de letras inesquecíveis e de melodias belíssimas que resultam em sambas inesquecíveis e possui mais de cinquenta anos de indefectível carreira musical.


Paulo César Baptista de Faria pertence a uma família de enorme tradição no samba: filho do violonista César Faria, integrante do lendário grupo de choro Época de Ouro, Paulinho cresceu ouvindo mestres como Pixinguinha e Jacob do Bandolim tocando na sala de sua casa. Apesar do pai ter lhe dado seu primeiro violão, Sr. César não queria que o filho se tornasse músico. No entanto, o jovem Paulinho começou a se interessar por carnaval e organizou um bloco carnavalesco na zona norte do Rio de Janeiro.


Aos 19 anos, o jovem Paulo César era um contador e estudava economia. Foi nesta época que ele teve contato direto com Hermínio Bello de Carvalho, que lhe aconselhou a carreira de músico. Ao ouvir pela primeira vez as gravações de Cartola, Elton Medeiros, Nelson Cavaquinho, Zé Kéti, Carlos Cachaça e outros, o samba lhe fisgou em cheio. Começou a compor sambas em parceria com Hermínio e deu início a uma brilhante trajetória musical.


Meu primeiro contato com Paulinho da Viola se deu graças ao meu avô, Sr. Adhemar, que tinha comprado um dos álbuns mais importantes da obra do mestre, Bebadosamba (1996). Logo depois, o videoclipe de “Ame” era transmitido volta e meia pela MTV Brasil. Por fim, meu pai comprou uma coletânea de mestre portelense e aquele rio de versos e trovas nunca mais saiu dos meus ouvidos.


Minhas memórias com a obra musical de Paulinho da Viola sempre passam pela afetividade e com memórias de pura nostalgia: lembro, por exemplo, que meu avô não gostou muito de Bebadosamba porque achou o disco lento demais – hoje, ao ouvir este álbum, tenho o direito de discordar de meu avô e acho um dos trabalhos de samba mais belos que jamais se produziu nos últimos tempos. Lembro de um aniversário meu em que cantei “Foi um rio que passou em minha vida” no meio de uma roda de samba inesquecível. É graças a Mestre Paulinho e à Clara Nunes que desenvolvi meu amor e minha admiração pela Portela, apesar de ter ido pouquíssimas vezes a Madureira em mais de 37 anos de existência.


No entanto, nem todas as minhas lembranças com o filho do Sr. César são agradáveis. Não por uma questão de desgraça, mas por uma questão de um tédio mortal. Em abril de 2011, conseguimos ingressos para assistir a um show de Paulinho da Viola no SESC Pompeia. Não podia me conter de excitação em poder cantar clássicos como “Argumento”, “Timoneiro”, “Perdoa”, “Na Casa do Vavá” e tantos outros. Quando o show começou, Paulinho comunicou ao público que aquela apresentação seria única e somente de lados B de sua obra. Logo de cara, a decepção tomou conta daquelas cadeiras do SESC. Depois, tentei aceitar o argumento do artista, mesmo sentindo a falta de sons familiares de cavacos, de pandeiros e tamborins acompanhados de versos que eu pudesse cantar junto. Todavia, quem era eu para alterar a ordem dos sambas de uma lenda de nossa música?


Saí daquele show depois de ter dormido em alguns trechos, triste por não poder cantar várias daquelas canções que eu tanto esperava ouvir. Fiquei de mal com Paulinho da Viola por um tempo, mas retomei a ouvi-lo com a mesma devoção. Afinal, não poderia ter um coração leviano e ignorar um dos maiores artistas do planeta. Mas, infelizmente, aquela má impressão permaneceu guardada lá no fundo das gavetas da memória.


Ainda tenho a esperança de que vou fazer as pazes em definitivo com Paulinho da Viola e ir em um de seus shows e poder cantar a fina flor de seu cancioneiro sem jogar um sorriso de ironia sequer. Afinal, a poesia de Paulinho jamais sumirá pela poeira das ruas...




Marisa Monte e Paulinho da Viola

12 de fevereiro de 2018

TROVA # 146

DIAS DE FOLIA

Av. Marquês de Sapucaí, Rio de Janeiro

“Mas é Carnaval!
Não me diga mais quem é você!
Amanhã tudo volta ao normal.
Deixa a festa acabar,
Deixa o barco correr.

Deixa o dia raiar, que hoje eu sou
Da maneira que você me quer.
O que você pedir eu lhe dou,
Seja você quem for,
Seja o que Deus quiser!
Seja você quem for,
Seja o que Deus quiser!”
(Chico Buarque de Hollanda)



         Este é meu trigésimo sétimo Carnaval. Não me lembro de todos, e ainda tenho a memória de alguns inesquecíveis. Já me rendi aos encantos da folia, porém hoje em dia aproveito os dias de festejos não apenas para descansar um pouco da loucura recém-iniciada do ano letivo, como também para ler um pouco, acompanhar os festejos pela TV, ver alguns desfiles das Escolas de Samba do Rio de Janeiro e até tento sair em um ou outro bloco carnavalesco, para não dizer que determinadas emoções eu vivi.

Acadêmicos do Baixo Augusta na Rua da Consolação, com a Pça Roosevelt à esquerda

         No passado, eu adorava desfrutar dos prazeres da carne durante os dias em que o Rei Momo governava as cidades e nos garantia quatro dias de folia, irreverência e batucada. Porém, os 30 foram chegando, me mudei para São Paulo (que só foi resgatar os carnavais de antigamente de alguns anos para cá) e o meu coração passou a pertencer a alguém. Além disso, minha resistência para aglomerações foi diminuindo e a minha paciência para programas coletivos ficou bem limitada. Folia imperdível é a que fica entre o sofá, a cama e o sol da piscina com algumas saídas com hora marcada para voltar.

As multidões na folia do Rio de Janeiro

         Além do empurra-empurra e do pessoal que bebe demais e resolve satisfazer suas vontades fisiológicas no meio da rua (não existe coisa mais desagradável do que cheiro de urina), o calor do verão me deixa profundamente angustiado. Outro motivo que me mantém em casa é a violência que não dá trégua durante o Carnaval: tenho pavor de assaltos e as cenas de criminalidade na TV me deixaram ainda mais sem vontade de sair às ruas. Não há irreverência ou marchinha de carnavalesca que resista à falta de policiamento nas ruas das grandes cidades brasileiras. Por outro lado, a vontade de protestar contra os governantes e as injustiças e me divertir cantando e espantando os males diários ainda me dá vontade de sair de casa e ainda acreditar que posso me sentir melhor...

A lendária Banda de Ipanema

         Diante de uma série de retrocessos e de direitos que os brasileiros têm perdido nos últimos dois anos, o Carnaval se tornou em um verdadeiro palco de protesto e resistência do povão e dos defensores da diversidade contra uma elite que sempre teve amor pelo luxo e horror a pobre. Enquanto os detentores de um bom capital conseguem investir em fantasias de alas de escolas de samba, carnavalescos elaboram protestos inteligentes contra o autoritarismo e a boçalidade que têm dado o tom de tempos mais recentes. O que seríamos de nós sem a genialidade de Joãosinho Trinta? E como seria a nossa irreverência se não existissem as marchinhas carnavalescas com suas letras irreverentes de duplo sentido?   

A alegoria de Joãosinho Trinta proibida de desfilar graças à Igreja Católica


            Por outro lado, é importante deixarmos claro uma questão fundamental: o Carnaval é a celebração da diversidade. Por isso, é um momento para que todos possam se expressar da maneira que achar melhor: os foliões podem ir para a rua, os roqueiros podem curtir seu som preferido nas alturas, os nerds podem ficar em casa em maratonas intensas de Netflix, os mais religiosos podem praticar a sua fé em retiros espirituais orando por suas almas e antissociais como eu podem ficar entre a rua e o conforto sagrado do lar. Se a individualidade de cada um fosse respeitada, a liberdade não seria uma constante apenas durante quatro dias de fevereiro ou março.



7 de fevereiro de 2018

TROVA # 145

BREVE MANUAL DE ETIQUETA PARA PLATEIAS DE SHOWS


         Um dia eu ainda irei escrever um livro para satisfazer as demandas do mercado. Quem sabe um desses manuais de moda e etiqueta ao estilo da Glória Kalil só que aplicado aos eventos musicais, porém com muita ironia e o deboche que me cabem neste latifúndio cibernético.
         Os principais eventos de um artista que se aventura pelo universo da música são os shows. Neste momento, o público possui a tão esperada oportunidade de ver a banda, o cantor ou a cantora de que tanto gosta no exercício de sua arte em carne e osso. Se existe a chance de ouro de ir até o camarim e estar com o seu ídolo face-to-face, você ainda pode trocar algumas palavrinhas com ele, tirar uma foto e pegar um autógrafo.
         Com o advento dos smart phones e das redes sociais, uma parcela do público de shows literalmente perdeu algumas noções básicas de bons modos e civilidade enquanto o artista faz o seu trabalho perante a plateia. Por isso, aproveito esta chance para fazer um TOP 10 dos comportamentos mais desagradáveis em shows:

    1) CHECAR REDES SOCIAIS DURANTE A APRESENTAÇÃO – É simplesmente inacreditável que os detentores de ingressos dediquem o seu tempo e dinheiro enquanto plateia para checar os chats do WhatsApp, os likes e DMs do Instagram, as transmissões ao vivo do Snapchat, Instastories e do Facebook. Além do fato de que o olho humano se desloca para lente da câmera e/ou para o visor do celular e de que a luminosidade e os ruídos dos telefones incomodam a concentração dos demais.

        2) TIRAR FOTOS E FILMAR O SHOW INTEIRO COM CÂMERAS, TABLETS E CELULARES – Não há coisa mais tosca, cafona do que posar para uma lente fotográfica com a cara mais feliz do planeta enquanto um músico se apresenta para uma plateia. Selfies em shows são o que há de mais brega em matéria de comportamento humano: dois ou mais animadinhos sempre incomodam aqueles que estão dispostos a desfrutar de uma boa música ao vivo.
Lembro, certa vez, de um surto que tive com uma louca que queria porque queria que eu interrompesse todas as atividades para tirar uma foto comigo e com meus amigos durante um show de Zélia Duncan. Em outra ocasião, tive que disputar terreno em uma plateia do SESC Itaquera para não derrubar um tripé de filmadora que estava estrategicamente posicionada para a filmagem de um show inteiro: não era a TV SESC, era um fã obcecado que achou mais importante ter que filmar tudo...
Deixar os outros em posição desconfortável por causa de um capricho tão egoísta – tirar fotos e filmar – é de uma insensibilidade sem tamanho. Restringir a liberdade alheia por um desejo seu é o cúmulo do ridículo...

3) CONVERSAR COM QUEM ESTÁ AO LADO DURANTE O SHOW – Certas pessoas se comportam em locais de show como se estivessem em estádios de futebol. Apenas se esquecem de que os músicos estão longe de serem craques da bola e de que cada número do setlist não é um lance futebolístico digno de análise ou comentário. Por isso, para que raios agem como se fossem o Neto ou o Galvão Bueno?!
Não me esqueço de um show de Angela Rô Rô no Teatro FECAP no qual um casal sentado atrás de mim comentava as piadas e canções daquele dia como se estivéssemos em uma final de Copa do Mundo. Por isso, amiguinho: não comente nada durante o espetáculo, sinta a música. Deixe para fazer isso durante a pizza após o evento...

4) RECLAMAR EM VOZ ALTA PORQUE NÃO OCARAM A SUA CANÇÃO PREFERIDA DURANTE O SHOW – Há comentários que são infinitamente desagradáveis. Principalmente quando são feitos durante uma apresentação que está agradando a maioria do público. Não estrague a alegria dos outros e não atrapalhe o trabalho de quem está no palco: Robert Plant não vai tocar “Stairway to Heaven”, Marisa Monte não é obrigada a tocar “Bem Que Se Quis”, Ney Matogrosso não canta “Telma Eu Não Sou Gay” nem por um decreto! O artista não tem a obrigação de tocar o que o público exige e nós, pagantes, não somos obrigados a encarar as lamentações dos outros.

5) GRITAR PEDIDOS DURANTE O SHOW – Teatros e casas de shows não são bares ou restaurantes com música ao vivo, onde basta enviar um bilhetinho pedindo “Flor de Lis”, “Oceano”, “Sozinho” e outros clássicos das FMs. E não existe nada mais deprimente do que ouvir um “TOCA RAUL!” em meio a uma apresentação. Deixem o espírito do Mestre Raul Seixas em paz...

6) BEBER MUITO DURANTE O SHOW – Se bêbados já são pessoas desagradáveis em bares, imaginem em eventos musicais com open bar? São representantes do que há de mais inconveniente no pedaço: ter que se deparar com poças de vômito, com o péssimo comportamento provocado pelo álcool e outras situações horrorosas é o cúmulo da falta de elegância! Além da alta possibilidade de barracos, provocações e brigas...

7) JOGAR O CORPO PARA FRENTE DO PALCO DURANTE O SHOW – O direito mínimo das pessoas que enfrentam horas e horas de fila para conseguir um lugar privilegiado na frente do palco, é ter o seu espaço garantido durante o evento. Por isso, é muita falta de educação e de ética chegar poucos minutos antes do show e ficar empurrando os demais para conseguir um lugarzinho bacaninha para ver a estrela da noite. Se queres conforto, chegue mais cedo!

8) LEVANTAR DO ASSENTO DURANTE O SHOW – Em certas ocasiões, precisamos fazer uma passagem pelo banheiro durante uma apresentação musical. Quando isso acontece comigo, me levanto de onde eu estou repleto de vergonha e vou discretamente ao destino tão desejado. Venhamos e convenhamos, há pessoas que extrapolam os limites do bom senso. Exemplo: estava eu em um show de Gal Costa numa renomada casa de show de São Paulo quando notei o burburinho de duas mesas de lados opostos da Pista VIP, onde eu, por acaso, estava. Uma moça da mesa do lado esquerdo se locomovia freneticamente para o lado direito (e vice-versa) enquanto Gal cantava o repertório de Recanto para ficar conversando com os amiguinhos durante o show. Nenhum problema em relação à hiperatividade da criatura se não fosse o fato de que ela estava EM PÉ ao lado direito da casa bem na frente deste que vos escreve para fofocar. Meu surto foi inevitável: expulsei a cidadã do meu campo de vista com meia dúzia de patadas e grosserias e voltei ao show de Gal com uma raiva imensa do tempo perdido. É muita petulância alheia com alguém que pagou ingresso caro para assistir uma das artistas que você mais gosta.

9) GRITAR DECLARAÇÕES DE AMOR PARA QUEM ESTÁ NO PALCO DURANTE O SHOW – Deixemos algo bem claro: você pode gritar e berrar o quando você quiser para o artista que ele é amado, desejado ou que ele é “lindo, tesão, bonito e gostosão” ou até que deseja fazer coisas impublicáveis com ele ou ela. (In)felizmente, quem está no palco geralmente não poderá ouvir os anseios da plateia. Shows de Maria Bethânia, Ney Matogrosso e Ana Carolina reúnem uma quantidade sem fim de frases que eu tenho vergonha que reproduzir aqui. Show de Chico Buarque então é um festival eterno de correio para o monstro de olhos azuis que me faz entender o fato dele raramente sair em turnê. No entanto, tem uma passagem hilária ocorrida comigo: em uma área VIP de um show de Paul McCartney em São Paulo, um rapaz de 20 e poucos anos não cansava de gritar “I love you, Paul!” para o ex-Beatle, inerte aos desejos histéricos individuais de 2 ou 3 e empenhado com um show de quase 180 minutos pela frente. Já uma amiga minha me contou que quase espancou uma quarentona louca que berrava na pista (500m de distância do palco!) de um show dos Rolling Stones de que Mick Jagger TINHA que fazer um filho com ela a todo custo.

10) ARRANJAR CONFUSÃO NO CAMARIM APÓS O SHOW – Se existe a oportunidade de outro de ir até o camarim e estar, por breves instantes, com o seu ídolo face to face após um show, já é um motivo e tanto para se sentir nas nuvens: trocar algumas palavrinhas, tirar uma foto e ainda pegar um autógrafo são ingredientes perfeitos para a plenitude da sua felicidade musical. Entretanto, há pessoas que desconhecem noções básicas de respeito e civilidade em situações assim. A admiração se transforma em histeria. As vozes histéricas se convertem em um desrespeito pessoal à figura do artista: ninguém é obrigado a tirar um milhão de selfies ou a autografar uma série sem fim de capas de disco ou de quinquilharias e ainda ter que sorrir freneticamente depois de horas extenuantes de ensaios, passagens de som e dos shows em si. O camarim não é a Ilha de Caras! Além disso, sempre há aqueles fãs que se acham mais dignos do que outros e adoram menosprezar os demais fãs e sugam o artista como um vampiro sedento por sua presa inocente. Diante do caos típico de toda porta de camarim, lembro-me sempre de uma frase muito sábia dita por minha fada madrinha: “O ingresso te dá direito ao show e não a uma ida ao camarim!”.  Quando não estamos no meio daquelas rodadas bregas de meet and greet, vale levar em conta que o artista não é propriedade particular do fã. Por isso e por muito mais, respeito e privacidade sempre fazem bem em uma hora dessas.  
Eis 10 dicas de etiqueta para que você possa se comportar adequadamente em eventos musicais. Se você seguir estas recomendações à risca, cada show será uma oportunidade e tanto de ser um acontecimento inesquecível. Nem a Glorinha Kalil ou essas blogueirinhas de plantão teriam te dado dicas tão bacanas como essas...

29 de janeiro de 2018

TROVA # 144

HISTÓRIAS EXTRAORDINÁRIAS

Não julgue um livro pela capa / Não julgue um garoto pelo rosto


“They say I must be one of the wonders
Of God's own creation
And as far as they see, they can offer
No explanation”
(Natalie Merchant, 1995)


“A mensagem de Extraordinário é atemporal, mas o tempo em que vivemos nunca precisou tanto dela. O momento atual é de muita polarização política, em que ambos os lados estão tão convencidos de que os próprios pontos de vista estão corretos que descartam os outros de maneira automática. O que Extraordinário nos ensina é que todos têm a própria história. Todo mundo tem um ponto de vista. E se parássemos para tentar entender por que as pessoas pensam o que pensam, descobriríamos que temos muito mais semelhanças do que diferenças.”
(Stephen Chbosky, 2017)


         Aproveitei o período de férias para assistir a um dos filmes mais aguardados da temporada cinematográfica de 2017: Wonder [Extraordinário]. Baseado no best seller infanto-juvenil de R. J. Palacio, a trama está centrada em Auggie Pullman, um menino de 11 anos de idade portador da Síndrome de Treacher-Collins, causadora de sérias deformações faciais.


         Até os 11 anos de idade, Auggie passou a maior parte de sua vida em consultórios médicos, hospitais e mesas de cirurgia, o que não lhe permitiu a vivência de uma vida escolar (o menino fora educado pela própria mãe) e, por consequência, foi privado do convívio de outras crianças. Quando chega o momento do menino ter que, enfim, ir à escola, é necessário que ele se prepare para a adaptação e para o convívio com os seus pares, deixando todos em estado de apreensão. O primeiro ano letivo de Auggie Pullman é um retrato fiel das causas e efeitos do bullying em sala de aula e de como devemos lidar com a tolerância e a diversidade nos tempos de hoje. As atuações de Julia Roberts (Isabel Pullman), Owen Wilson (Nate Pullman) e do menino Jacob Tremblay (Auggie Pullman) fogem dos excessos de pieguice e, capitaneados pelo diretor Stephen Chbosky, fogem dos excessos de pieguice de forma certeira e equilibrada, garantindo um ótimo resultado final: um filme para crianças, jovens, adultos e, especialmente para os profissionais da área de educação.


R. J. Palacio – pseudônimo da designer gráfica e escritora nova-iorquina Raquel Jaramillo – se inspirou em uma experiência própria para escrever seu livro: ela estava em uma fila para comprar sorvete ao lado de seu filho de três anos quando ambos se depararam com uma menina portadora da Síndrome de Treacher-Collins. O menino, assustado com a aparência da garota, começou a chorar, para desespero da mãe, que saiu do local completamente envergonhada. Mais tarde, Palacio ligou o rádio e ouviu “Wonder”, um dos maiores sucessos da cantora e compositora Natalie Merchant e encontrou na canção e no lamentável incidente um material e tanto para uma lição de vida.

R. J. Palacio, pseudônimo da designer gráfica Raquel Jaramillo


      O resultado final da empreitada foi Wonder [Extraordinário], romance infanto-juvenil publicado em fevereiro de 2012, traduzido em várias línguas e líder de vendas do New York Times por anos. Raquel Jaramillo deixou de viver uma vida convencional como designer gráfica para se tornar na escritora R. J. Palacio e ganhar o mundo, como autora de milhões de livros vendidos. Natalie Merchant, bastante emocionada com a homenagem rendida por Palacio, divulgou o livro não apenas em entrevistas, como também nas suas redes sociais e em seu site oficial. A ocasião do lançamento do romance foi um belo pretexto para que Natalie nos contasse um pouco mais sobre o seu processo de criação: “Wonder”, a canção, foi composta em 1994 a partir de alguns ocorridos com uma criança especial e foi o segundo single de Tigerlily, álbum de estreia da artista logo após a sua saída do grupo 10.000 Maniacs.


O videoclipe de “Wonder” foi dirigido por Jake Scott (filho do cineasta Ridley Scott) e traz Natalie cantando e dançando junto com mulheres de todos os tipos e com portadoras de autismo e Síndrome de Down. Quatro minutos e meio de música, poesia, solidariedade e diversidade musical que ajudaram Natalie Merchant a vender milhões de cópias de Tigerlily pelo mundo todo.


Dentre as pessoas que se emocionaram e se identificaram com “Wonder” estavam as irmãs gêmeas Kathy e Kelly Daley, diagnosticadas com uma doença de pele congênita e incurável desde o berço. Através de uma carta do pai das meninas, Natalie Merchant conheceu as meninas, conseguiu estabelecer uma amizade com as duas e até chegou a convidar as “Angelinean Sisters” para cantar em uma das faixas de Motherland, seu terceiro álbum de estúdio.


O documentário Paradise is There, lançado na ocasião dos 20 anos do lançamento de Tigerlily, traz uma longa entrevista de Natalie com Nancy Daley, mãe das gêmeas, comentando a respeito da importância de “Wonder” para a autoestima de toda a família. As irmãs Daley faleceram em 2006 e deram uma lição de vida para todos os que as conheceram. O resgate da saga desta família em busca pela sobrevivência através do projeto comemorativo de Natalie Merchant demonstrou não apenas isso, como também foi uma homenagem da artista às meninas que lhe ensinaram muito mais do que possa existir entre artistas e fãs.



Muitos de nós vivemos vidas comuns graças ao fato de sermos belos e saudáveis de acordo com os olhos do senso comum, pois não temos a necessidade de lidar com hostilidade e preconceito por causa do corpo que habitamos. As irmãs Daley e Auggie Pullman são donos de histórias extraordinárias por extrapolarem os limites da canção, da ficção e de certas convenções da vida real para exercitarem seu livre direito de ser e estar, de ir e vir. As sagas (reais e ficcionas) destes seres humanos não são apenas convites para convivermos e aceitarmos a diferença e a diversidade da maneira mais natural possível: elas também devem nos servir como pretexto para agradecermos ao Universo por não sofrermos de doenças ou síndromes congênitas. As melhores lições de vida são fruto da dor de sermos diferentes, porém extraordinários...


28 de dezembro de 2017

DISCOS DE VINIL # 48

THE ROLLING STONES – TATTOO YOU (1981)


Os anos 1980 foram bem bicudos para muitos músicos e bandas de Rock. John Lennon tinha sido brutalmente assassinado por um fã desequilibrado; O Led Zeppelin foi abatido fatalmente com a morte do baterista John Bonham; o Punk já era uma expressão musical em pura decadência, para citar apenas alguns exemplos daqueles dias difíceis. Infelizmente, a crise de meia-idade musical também tinha atingido os Rolling Stones: a parceria de Mick Jagger e Keith Richards já davam os primeiros sinais de desgaste, visto que as relações entre eles começavam a azedar cada vez mais.


Com a morte do guitarrista Brian Jones e com a saída do empresário Andrew Oldham do controle criativo dos Rolling Stones, Mick Jagger tomou para si o papel de direcionar os passos da banda. Enquanto Keith Richards vivia às voltas com Anita Pallenberg, a heroína, o álcool, algumas prisões e muita (mas muita!) confusão, Jagger conseguiu fazer dos Stones, enfim, um negócio bastante lucrativo. As turnês da década de 1970 se tornavam cada vez maiores, gerando mais discos, mais popularidade e um fluxo de caixa mais gordo para um grupo de músicos que, anos antes, tiveram que abandonar o Reino Unido às pressas por estarem afundados em dívidas com o governo britânico. A principal consequência deste processo foi a inflação do ego de Sir Jagger em escalas exponenciais, o que foi fatal para o equilíbrio das boas relações com Richards.


No final dos anos 1970, Keith estava finalmente se livrando da dependência em heroína, o que lhe motivou a querer retomar a sua participação como co-líder da banda. Mick, influenciado pelo tipo de música que se produzia na última metade daquela década, teve voz decisiva na realização dos álbuns Some Girls (1978) e Emotional Rescue (1980), dois sucessos de crítica e público, que deixaram Richards insatisfeito com os rumos musicais que os Rolling Stones trilhavam naquela época. No entanto, era preciso sair em turnê no ano seguinte - os Stones tinham programado duas excursões gigantescas: a primeira passaria pelos EUA no segundo semestre de 1981 e a segunda etapa levaria os músicos pela Europa até julho do ano seguinte -, por isso, todos os ressentimentos deveriam ser varridos para debaixo do tapete para que a máquina voltasse a rodar com todo o vigor necessário.



Como a parceria Jagger-Richards estava paralisada devido aos choques de egos entre Mick e Keith, a solução foi garimpar os arquivos de gravações dos Stones e criar um álbum "novo" para poder promover durante as turnês norte-americana e europeia. O resultado deste garimpo musical foi Tattoo You, lançado em 24 de agosto de 1981. Último álbum da banda a alcançar o topo das paradas musicais dos EUA até o presente momento, o disco abre com "Start Me Up", canção obrigatória em todas as apresentações dos Rolling Stones e um dos maiores sucessos de toda a história do Rock 'n' Roll. O videoclipe foi dirigido por Michael Lindsay-Hogg, o mesmo que dirigiu o documentário Let it Be (o canto do cisne dos Beatles), e mostra os músicos tocando em formato de playback com direito às piruetas de Mick Jagger em calças legging - uma das imagens mais icônicas do astro.



Os 44 minutos e 23 segundos de Tattoo You revelam a excelente disposição dos Rolling Stones em fazer música de qualidade. Das canções mais antigas desta coleção estão "Tops" e "Waiting On A Friend", compostas durante as sessões de gravação de Goat's Head Soup (1973). Enquanto a primeira é sobre um relacionamento intenso entre um homem e uma mulher, a segunda é um dos tratados poéticos mais sinceros e belos sobre a amizade - sentimento que Jagger e Richards não conseguiam cultivar naquele momento. Da safra 1975-1976, fazem parte "Worried About You" (uma das poucas faixas nas quais Mick Jagger toca piano elétrico), "Slave" (com direito a improvisações estilo Free Jazz do lendário tecladista Billy Preston) e a primeira versão de "Start Me Up", que teria sido um reggae se não tivesse ido para o arquivo das gravações do álbum Black and Blue (1976).


"Hang Fire", "Neighbours" e "Black Limousine" (parceria entre Jagger, Richards e o guitarrista Ron Wood) foram três números compostos e/ou descartados de Some Girls e que cumpriam um ótimo papel nos setlists de apresentações ao vivo dos Stones na época. O videoclipe de "Neighbours", por exemplo, faz referências ao filme Janela Indiscreta (Alfred Hitchcock) e ao fato incômodo de Keith Richards ter tido problemas jurídicos com vizinhos do prédio onde morava com Patti Hansen (segunda esposa do guitarrista) em Nova York por causa do volume alto da música que vinha de seu apartamento. "Hang Fire", infelizmente, não é um número tão executado nas turnês da banda: a batida rápida de Watts aliada às guitarras incandescentes de Richards e Wood são o combustível perfeito para a energia inesgotável de Jagger nos vocais. "Black Limousine", por outro lado, foi bastante tocada durante as apresentações do período 1981-1982.


Do período das gravações de Emotional Rescue, os Rolling Stones resgataram "Heaven", "Little T & A" e "No Use In Crying". "Little T & A" é uma declaração de amor de Keith Richards à então futura esposa, a modelo Patti Hansen, e mãe de suas duas filhas mais jovens: Alexandra e Theodora. Nos sets onde Keith assume o microfone principal para que Mick vá para o backstage renovar as energias para a segunda parte do espetáculo, a quarta canção de Tattoo You é uma presença constante ao lado de números mais consagrados como "Happy" e "You Got The Silver". "Heaven" é um número típico das ambições de Jagger no período - impressionado (ou ameaçado) por Prince, gravou uma faixa inteira com vocais em falsete com o objetivo de superar as atenções dadas ao autor e intérprete de "Kiss" e "Purple Rain". Já "No Use In Crying" é uma bela balada dos Stones, com direito aos riffs marcantes de Keith e a rara colaboração da dupla de compositores nos vocais - digamos que este é um dos últimos momentos de união entre os líderes da banda antes da guerra épica de egos que quase destruiu a banda na década de 1980.



Considerado pela crítica e pelos fãs como um dos melhores discos de Rock de todos os tempos, Tattoo You recebeu muitas críticas positivas e é considerado pelos admiradores mais ferrenhos dos Rolling Stones como o último grande momento da banda (foi o último disco dos Stones a alcançar o topo das paradas norte-americanas até o presente momento). Se levarmos em conta o time de músicos que tocaram nestas faixas - Nicky Hopkins, Ian Stewart e Billy Preston (piano e teclados), Wayne Perkins e Mick Taylor (guitarras), Sonny Rollins (sax), Pete Townshend (vocais de apoio em "Slave"), Ollie Brown, Jimmy Miller e Chris Kimsey -, Mick Jagger e cia conseguiram criar um punhado de grandes canções e que dificilmente deixarão de estar na memória dos amantes de Rock 'n' Roll. Afinal de contas, as palavras de ordem destes músicos sempre foi e sempre será: "Never Stop!"...